segunda-feira, 14 de março de 2011

A era dos milagres

  • Quando foi a era dos milagres? - perguntou Dona Benta no dia seguinte. - Vamos ver quem sabe.

  • Foi no tempo de Cristo – respondeu Narizinho

  • Foi no tempo das fadas – respondeu Emília

    Pedrinho calou-se. Não deu opinião.

  • A era dos milagres não foi – disse Dona Benta – Está sendo agora. Estamos nós vivendo em plena era dos milagres, sem que prestemos a menos atenção a isso!

  • Como vovó?

  • Sim. Imaginem que um homem antigo ressuscitasse agora. Poderia compreender as coisas que temos e as quais não ligamos a mínima importância?

    Estou imaginando as aflições do coitado! Vira-se pra cá, e dá com uma pessoa falando pelo telefone com um amigo morador em outro continente – e logo julga são dois mágicos que conversam. Vai ao cinema e vê desenrolar-se uma fita americana de bandidos moderníssimos, que se atacam uns aos outros com metralhadoras. O nosso homem não entende nada e fica certo de que há gente atrás do pano. Vai espiar. Não encontra ninguém e abre a boca.

    Nisto uma vitrola põe-se a reproduzir um disco de falação. O nosso homem, já meio tonto, vai ver quem está debaixo da mesa. Nada encontra e arregala o olho.

    Agora o rádio que entra a funcionar. O pobre homem põe-se a tremer. Corre à janela para tomar fôlego. No céu desliza um imenso pássaro que ele nunca supôs existir, o avião. “Será verdade então – pensa ele – que existe mesmo o pássaro Roca?”

    Na rua vê bondes e autos, isto é, veículos que andam sem cavalos. O homem acaba enlouquecendo, porque não pode de maneira nenhuma entender coisa nenhuma.

    A idade dos milagres é esta. De momento a momento novas maravilhas saem dos laboratórios científicos. As invenções se atropelam.

    Monteiro Lobato. A era dos milagres.

    Histórias do mundo para as crianças.

    19 ed São Paulo, Brasiliense, 1972

Um comentário:

Anônimo disse...

Esse texto e muito legal